“Quem conta um conto acrescenta um ponto”

A trabalhar á seis anos num café restaurante português e habituada a ouvir as mais variadas razões que tinham levado aquelas pessoas a emigrar, até hoje ainda não tinha ouvido nenhuma que se aproximasse da sua.

Paula tinha 40 anos quando emigrou para a Alemanha. Não deixou o pais por razões económicas, por falta de trabalho ou com o sonho de construir a casa própria de que tanto ouve os emigrantes falarem, nem estava certa se emigrar era o que ela tinha feito, na sua mente “fugir” era a palavra certa para a decisão que tinha tomado no dia frio de 20 de Dezembro. Estava casada á mais de 25 anos com um médico renomado da aldeia que viva. Para as pessoas tinha a vida perfeita, a sua história de amor tinha sido um verdadeiro conto de fadas. Ele vinha de famílias abastadas, ela de uma família pobre. Conheceram-se na festa da aldeia e ele ficou perdido de amores por ela assim que a viu. Um casamento improvável que acabou por acontecer ao fim de 9 meses de namoro. Tudo ia bem até ao nascimento da primeira filha, para Paula esse foi o ponto de virada, o conto de fadas tornou-se uma história secreta de horror na qual foi personagem principal durante os 20 anos seguintes.

Ele tornou-se uma pessoa violenta, agredindo-a psicológica e fisicamente, as marcas que lhe deixara no corpo e na alma, mesmo ao fim de 10 anos e muitos quilómetros de distância, teimavam em não desaparecer.

Antes de fugir para a Alemanha,  tentou várias vezes, sempre sem sucesso, sair de casa e pedir o divorcio, mas ele acabava sempre por a fazer voltar. Quando não voltava por ele voltava pela vergonha de passar na rua e ouvir o seu nome na boca do povo, quando não era ele nem a má-língua das pessoas era a falta de ajuda ou de compreensão da sua própria família que a culpava por toda aquela situação.

Numa das suas inúmeras passagens pelo hospital conheceu uma senhora que era emigrante na Alemanha fazia já 50 anos. Ao ouvir da sua situação por parte dos médicos, antes de partir, deixou-lhe um bilhete com o seu número de telefone e uma frase que acabaria por mudar a sua vida “ Quem diz que uma mulher em situação de violência doméstica tem que ser “sábia”, “edificar o lar” tem sangue nas mãos. Ligue-me”.

Sem qualquer garantia e agarrando-se á promessa de uma desconhecida, á esperança e á mão da sua filha, fez as malas, comprou dois bilhetes de autocarro e partiu.

O país que agora começara a conhecer em nada se parecia com a “Terra Prometida” que tinha ouvido pelos emigrantes que em Agosto enchiam a aldeia.

O dinheiro era difícil de ganhar e só com muito trabalho e sacrifício ela conseguia juntar algum, para poder dar á filha o que esta necessitava. Por não ter curso superior, nem qualquer conhecimento da língua alemã Paula sujeitou-se aos trabalhos que apareciam.

A vida de emigrante era solitária, cara e triste.

Trabalhava das 5 da manha até á 1 da tarde num café, depois das 2 às 4 limpava os escritórios de um banco e das 5 da tarde às 9 da noite trabalhava na cozinha de um restaurante. Voltava para a filha depois disso.
Ajudava-a com os trabalhos de casa ,o melhor que sabia, e contava- enquanto cozinhava tratava dos afazeres de casa.

Paula, apesar da vida dura e solitária a que já se tinha habituado  não se queixava, tinha sempre um sorriso nos lábios e uma palavra de conforto para os que pelo café passavam e se alguém precisasse de ajuda era a primeira a estender a mão.

Com o tempo (quase) se esqueceu da vida que um dia teve, no entanto tinha perdido a esperança de encontrar alguém que pudesse gostar dela, a esperança de um dia poder ser feliz.

Paula vivia para a filha, para o trabalho e para o dinheiro que ganhava.

Ironicamente, num país onde os direitos das mulheres tanto são discutidos, Paula sentia-se a cada dia menos mulher e menos mãe. Por não falar o alemão dependia sempre da ajuda de alguém para as coisas mais básicas, como para preencher um papel,  ir ao médico ou até mesmo para ir a uma reunião na escola da filha.  

“Está na altura de acreditar que estou aqui como emigrante e não como fugitiva. Tenho aprender a língua. Preciso de fazer algo por mim” – pensou.

Pedro entrou no café ainda vazio, pediu o habitual Martini abrindo um sorriso.

Paula sorriu-lhe de volta agradecendo mentalmente por ele a ter libertado dos seus próprios pensamentos.

“Está muito bonita hoje Dona Paula. Quando arranja um tempinho para lhe poder ensinar Alemão como me tem prometido?”

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