“Entre marido e mulher mete-se a colher”

Vesti me de preto como manda a tradição.

Enviuvei vai pra mais de 18 anos e desde ai ninguém me conheceu outra cor senão o preto. Gosto de me levantar cedo e tratar do pouco gado que ainda tenho. Dia sim dia não cozo o pão pela fresca da manhã, amasso a massa à noite e deixo a a levedar para o outro dia, foi me ensinado assim. 

O queijo e os enchidos já deixei de os fazer, não tenho quem os coma, mas pão eide fazê-lo até poder. Sabe têm outro gosto este pão, e é macio pro mes dentes.

De resto olhe, deixo me estar por aqui vou me entretendo com a lida da casa e os animais. Nunca fui mulher de ir pra cafés. 

Às vezes sento me aqui um bocadito a descansar que eu já não posso das minhas pernas, incham me muito as minhas pernas. Tirando isso não me posso queixar muito menina, Deus tem sido bom pra mim, vejo mal ó perto mas eu também não leio o jornal por isso não me apoquenta. 

Nunca conheci uma letra menina, mas sempre fiz tudo, mais por aqui ou por acolá lá me fui desenrascado.

O meu filho, graças a Deus ele sim, é estudado. Foi pra Lisboa e olhe lá ficou. Casou com uma moça de lá. É raro cá virem, eles vão muito para fora no verão. Elem também podem. Sabe, Isto aqui é muito pacato para eles e o mê filho diz que não ter interneta aqui é um cabo dos diabos por causa do trabalho dele. 

Mas ele telefona quando pode, lá isso é uma verdade, não me posso queixar, não é como o filho da Augusta que passa meses que não lhe telefona. Mas isso é lá com eles. 

Os dia passo os bem, mas sabe menina, aqui que ninguém nos ouve, a mim custa me o Inverno e as noite. 

Dinverno é muito frio e eu não me astrevo a buscar lenha sozinha e de noite tenho medo que me robem ou façam mal. 

O que me têm valido é a neta da Ilda que me ajuda como pode. Vai me às pinhas, trás me lenha e passa aqui umas noites comigo debaixo da lareira até à hora me deitar. 

É uma joia de moça, só que olhe deixou se ficar por aqui e nunca casou. 

Já lhe perguntei se ela não sente falta de um home e sabe o que ela me respondeu? Que um home só dá dores de cabeça e sabe menina? Ela é que tem razão. Não lhe vou mentir, ela é muito falada, mas eu gosto da cachopa. 

A Gertrudes, sabe? ali da tia anica?! quando me encontra aqui sentada um bocadito ao sol vêm me logo com dizeres deste e daquele. Eu sou lhe sincera eu cá não gosto. Eu calo me que não lhe vou dizer nada que na vale a pena, mas cá para mim penso sempre “quem ta dentro do convento é que sabe o que lá vai dentro”

O meu marido, que Deus o tenha em descanso, com o vinho batia me muito, mas à época nã se podia fazer nada. Sabe como era. Sofri muito sempre calada e nunca deixei que o mê filho soubesse.

Agora os tempos são outros e se ele lhe batia fez muito bem em deixá-lo. Não leve os ses pais a mal, sabe que aqui na aldeia as pessoas não lidam bem com essas coisas, mas mais uma vez lhe digo, se ele não bom pra menina fez muito bem em deixá-lo e se precisar de alguma coisa das minhas bandas, não se acanhe em dizer.

Olhe conversa vai conversa vem acabei de debulhar os tremoços. Agora vou metê-los a cozer. 

Passe por aqui amanhã que lhe mando uma macheia deles que a sua mãe gosta muito. E não compre pão que lhe mando um dos meus também pro sê pai comer com o queijito e chouriço.

Dê cá um abraço e na chore que dias melhores virão. Tenha fé.

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